Duas Boas Introduções ao Mundo do Vinho

Vinho Sem Segredos. Patricio Tapia, Editora Planeta do Brasil, 2006, R$ 34,90. Introdução ao Mundo do Vinho. Ciro Lilla, Editora WMF Martins Fontes, 4ª Edição, 2013. R$ 32,00.

Introducao ao Mundo do Vinho

Capa do livro Introdução ao Mundo do Vinho, de Ciro Lilla

Estes são duas das melhores introduções ao mundo do vinho disponíveis no mercado para quem está querendo se aprofundar no assunto. São ambas bem escritas,informativas e, na verdade, se complementam uma a outra, pois têm enfoques diferentes.

O do Ciro Lilla, já na 4ª edição, foi o primeiro livro que li sobre vinhos quando estava começando a me interessar pelo assunto. Ciro Lilla é um conhecido empresário do mercado brasileiro, proprietário da importadora Mistral, a maior do Brasil na atualidade e com um dos maiores catálogos de vinhos da América Latina.

O livro faz um bom panorama do mundo do vinho, trazendo inicialmente um pouco de história desta bebida, noções preliminares e tipos de uvas. Em seguida vem o capítulo mais longo do livro, trazendo uma abordagem abrangente dos países produtores mais importantes. O livro traz ainda a descrição de alguns vinhos famosos, um pouco sobre harmonização, cuidados, conselhos e equipamentos e fecha com uma seção de perguntas e respostas sobre as questões mais comuns que as pessoas fazem quando estão começando a apreciar o vinho.

Enfim, trata-se de um livro fácil de ler, com informações objetiva para quem está começando e tem muitas dúvidas, e que são respondidas no livro por quem entende bastante do assunto.

Vinho Sem Segredos

Capa do livro Vinhos Sem Segredos, do crítico chileno Patricio Tapia

Já o livro de Patricio Tapia tem um foco bem distinto do de Ciro Lilla. Tapia, um famoso crítico chileno, é editor do site Planetavino.com, um dos sites de vinhos mais importantes do Chile. Tapia escreve para várias revistas internacionais de vinho, entre elas a Wine Spirit.

O livro tem um enfoque maior na produção e apreciação do vinho, descrevendo com mais detalhes as uvas, as técnica de plantio e de vinificação. O livro mostra também como devem ser feitas as degustações, conselhos de como servir o vinho, fazer a guarda do mesmo e o papel do sommelier.

O livro é bastante focado nos vinhos da América do Sul e a contrário do de Lilla, faz pouca menção aos vinhos europeus ou de outros países.

Fartamente ilustrado, certamente é também um bom livro para quem está começando.

Pequena História do Vinho III – Do Século XII ao Surgimento do Champagne

Do Século XII à era Moderna

A Igreja herdou dos nobres muitas terras com vinhedos e ela por sua vez cuidou muito bem deles. Alguns dos melhores vinhedos da Franca, Alemanha, Itália e Espanha tiveram origem em plantações monásticas. Por volta de 1.300 monges cistercienses ampliaram os vinhedos na Borgonha e na região do Vale do Rhône. Eles foram talvez os primeiros a plantar a uva Chardonnay na região de Chablis, dando origem a este famoso e tão apreciado branco da Borgonha.

O casamento de Henrique II e Eleanor de Aquitânia em 1.152 teve importante impacto para a história do vinho, pois colocou a região de Bordeaux sob domínio inglês por cerca de 300 anos. O filho de Henrique II, Ricardo Coração de Leão, montou sua base na região e apossou-se de seu vinho.

Logo os ingleses se tornam os maiores consumidores de vinhos desta região, sendo que em 1390 eles respondiam por cerca de 80% da exportação de Bordeaux. A cobiça dos ingleses pela regiões vinícolas francesas foram um dos fatores que levaram à guerras que duraram quase três séculos, incluindo a Guerra dos Cem Anos, que resultou finalmente na expulsão dos ingleses dos vinhedos franceses em 1453.

Com a derrota, os ingleses passaram a se interessar pelos vinhos da Alemanha, Itália, Portugal e Espanha, o que levou ao intensificação do comércio do vinho nessa região da Europa.

rolhas

Rolhas de cortiça

Com a reforma religiosa que se seguiu ao período do Renascimento, a Igreja perdeu muitas de suas propriedades vinícolas, que passaram a serem propriedades privadas, dando origem aos vinhedos atuais.

No início do século XVIII aconteceram melhorias na fabricação do vidro e consolidação da rolha para utilizada para vedação do vinhos. A rolha, com suas propriedades de vedação revolucionou o armazenamento e o envelhecimento do vinho. Isto permitiu o desenvolvimento do comércio,pois garrafas bem vedadas permitiam o transporte para lugares bem mais distantes, como as colônias européias.

O Surgimento do Champagne

Dom Pérignon

O monge beneditino Dom Péignon, o pai do Champagne

Neste período também se deu o desenvolvimento dos vinhos espumantes ou champangne, que também se beneficiaram do desenvolvimento do vidro e da rolha, pois este tipo de vinho necessita de garrafas mais resistentes e uma vedação mais eficiente.

O desenvolvimento do champagne é atribuído a Don Pérignon, um monge beneditino e que empresta seu nome ao vinho mais cultuado desta região. Na verdade, o monge queira evitar as borbulhas do vinho e a descoberta do champagne foi por acaso. Outros produtores desenvolveram as técnicas de vinificação do champagne, mas como o monge sintetizou suas normas de cultivo e de vinificação em 1.718, ficou conhecido como o pai de Champagne.

O champagne logo se tornou a moda nos círculos aristocráticos da Europa, na Rússia e nas colônias da Europa nas Américas e na África.

Fontes: Henderson & Dellie, Sobre Vinhos, Cengage, 2012.; Vinhos do Mundo Todo, Zahar Ed., 2006; Revista Adega, edição 100, editora Inner.

Por que Alguns Vinhos Chegam a Custar Uma Verdadeira Fortuna?

Uma das coisas que mais chamam atenção e fascinam às pessoas que começam a se interessar por vinhos são os preços de alguns deles. Garrafas de ícones como Château Petrus e Romanée-Conti passam facilmente de R$ 15 mil reais aqui no Brasil. E não pense que lá fora é muito diferente. Se você tiver oportunidade de visitar, por exemplo, a Bordeuxtheque, nas Galeries Lafayette, em Paris, você certamente ficará impressionado com os preços, alguns chegando a custar mais de 30 mil euros.

Preços em ascensão

Screaming Eagle

Rótulo do vinho californiano Screaming Eagle

Na verdade, nas últimas décadas houve uma verdadeira inflação no preço dos vinhos no mercado mundial. Vinho californianos, como os Screaming Eagle, atingiram altíssimos preços e mesmos os vinhos do Novo Mundo tiveram elevação significativa de preços. Até alguns anos atrás, vinhos como o argentino Nicolás Catena e o chileno Don Melchor era considerados caros e custavam em torno de R$ 300 reais. Hoje é muito comum rótulos desses países ultrapassarem facilmente R$ 600 reais.

Até mesmo no Brasil está se tornando comum encontrar vinhos que ultrapassam mais de 200 reais, principalmente nos chamados vinhos de boutique, ou seja, vinhos de pequenas vinícolas de cultivo manual e pequena produção.

Fatores de Mercado que Influenciam nos Preços

A pergunta que se faz então é por que este vinhos custam tanto e se eles valem tudo isso. Se vale ou não é uma outra questão, mas a elevação dos preços pode ser explicada por condições de mercado. Há muitos fatores que influem no preço do vinho e aqui listamos algumas que julgamos mais importantes.

Cuidados na produção - produzir vinhos de qualidade custa caro. Muito das vinícolas  utilizam técnicas especiais de cultivo e de vinificação, como limite de parreira plantada por hectare, poda manual das parreiras, corte de cachos manuais, limite de do quantidade de cachos por parreira, etc. Estes procedimentos tendem a aumentar a qualidade do vinho, mas encarecem a produção.

Safras historicamente boas – algumas safras resultam em vinhos melhores do que as outras e os vinhos resultantes destas safras tem seus preços aumentados como conseqüência. Isto é particularmente verdadeiro para os vinhos produzidos no Velho Mundo. As safras de Bordeaux de 2008 e 2009, por exemplo, foram consideradas excepcionais e a procura por seus vinhos disparou. É difícil achar vinhos top dessas safras até mesmo em lojas na França e quando se encontra, são caríssimos.

Crítica – atualmente críticos famosos como Robert Parker, Jancis Robinson e os críticos de revistas como Wine Spectator exercem muito influência no comércio de vinhos. Aqueles que recebem altísimas notas de Parker ou da Wine Spectator são muito valorizados no mercado.

Exclusividade – Alguns dos grandes vinhos californianos são produzidos para clubes fechados e conseguir uma garrafa é quase uma tarefa impossível, quando não se é membro de um desses clubes. Quando estes vinhos chegam nas mãos dos críticos e alcançam pontuação elevada, eles passam a ser objeto de desejo dos colecionadores do mundo todo.

Romannee_Conti

Uma garrafa de Romannée-Conti, o mítico vinho da Borgonha

Produção limitada - alguns vinhos tem produção limitada, o que torna a sua aquisição muito disputada pelos colecionadores, como é o caso dos grandes vinhos da Borgonha, famosos e de pequenas propriedades. É bastante comum também as grandes vinícolas produzirem vinhos com produção limitada, com seleção rigorosa de uvas de determinadas safras. O português Barca Velha, da Casa Ferreirinha, só é produzidos em anos de safra excepcional.

Prestígio do produtor – alguns vinhos com o tempo viraram ícones, como é o caso do Romannée-Conti, Château Lafite-Rothschild e o doce Château d’Yquem e, portanto, seus preços tendem a refletir o prestígio que estes vinhos alcançaram ao longo do tempo.

Modelo de comercialização – Os grandes vinhos de Bordeux são vendidos no mercado futuro, prática conhecida setor como en primeur, geralmente venda com dois anos de antecedência e com o vinho ainda nos barris das vinícolas. Ou seja, quando eles vão para o mercado, já estão com a produção completamente vendida. Se houver aumento da demanda, isto se refletirá diretamente no preço, pois não tem como aumentar a produção.

Demanda de mercados emergentes – a ascensão dos mercados emergentes aumentou a demanda por vinhos de qualidade, principalmente dos franceses de Bordeaux e Borgonha, e a conseqüência disso foi a elevação geral nos preços. A demanda vinda da China por vinhos de qualidade tem sido um dos fatores mais importantes na elevação nos preços dos vinhos nos últimos anos.

Qual a Temperatura Ideal para Servir o Vinho?

Para que se possa tirar o máximo do que um bom vinho pode oferecer, servi-lo à temperatura ideal é crucial. Na verdade, uma temperatura inadequada pode apagar completamente algumas das características do vinho, tornado-o ou excessivamente ácido ou deixando-o sem vida.

Vinho e Temperatura

Servir o vinho na temperatura ideal é muito importante preservar suas características.

Temperatura abaixo do ideal faz com que os aromas do vinho desapareçam, tornando-o muito ácido, enquanto que temperatura muito alta fará com o álcool sobressaia demais.

Não há um consenso sobre a temperatura exata para que o vinho seja servido e em alguns países a cultura local adota algumas regras que nem sempre resulta no ideal. Por exemplo, quando estive em Londres, em todos os restaurantes que freqüentei, os garçons serviam o vinho tinto na temperatura ambiente, que no mês de setembro atinge temperaturas maiores do que 25°, deixando o vinho muito longe do desejável, principalmente os de menor corpo

Mas, como regra geral, pode-se observar o seguinte:

Vinhos espumantes: deve-se servi-lo bem gelado, em torno de 5°C ou 6°C.

Vinhos brancos: servir entre 9°C e 15°C. Este intervalo pode parecer muito alto, mas a regra aqui é observar se o vinho é mais ou menos incorpado ou se o vinho passou ou não por barris de carvalho. Quanto maior for o corpo do vinho ou mais amadeirado ele for, maior sua temperatura de serviço. Um bom chadornnay concentrado, que passou vários meses em barris de carvalho, pode ser servido à uma temperatura em torno de 15°, próxima a de um tinto leve.

Vinhos tintos: servir entre 15°C e 18°C. Aqui a regra é a mesma para os brancos. Vinhos leves, como um bom beaujolais pode ser servido a uma temperatura de 15°C, enquanto que um cabernet sauvignon bem potente só terá todas as suas complexidades reveladas a uma temperatura em torno de 18°C ou mesmo 20°C.

Balde de Gelo

Controlando a temperatura do champagne com baldo de gelo.

Vinhos licorosos ou doces tipo porto: servir em torno de 11°C a 14°C.

Uma coisa importante é não colocar o vinho no congelador para que este chegue rapidamente à temperatura correta, pois isto provocará um choque térmico no vinho, o que pode arruiná-lo completamente. O correto é deixa-lo no refrigerador o tempo suficiente para que a temperatura ideal seja alcançada lentamente.

Depois de aberto, pode se controlar a temperatura com um balde de gelo, imergindo-o e tirando-o periodicamente para que não esquente ou esfrie demasiadamente.