A Crítica de Vinhos e o Sistema de Pontuações

A Ascensão da Crítica Especializada

Nunca na história do vinho o papel dos críticos se tornou tão importante como na atualidade. Críticos de vinhos famosos como Robert Parker, Jancis Robinson ou Hugh Johnson exercem tão profunda influencia sobre o mercado que uma opinião deles favorável ou não sobre um determinado vinho tem o poder de afetar o preço que será cobrado por ele.

O mais famoso crítico, sem dúvida alguma é Robert Parker, advogado americano que fundou a revista Wine Advocate e de quem se costuma dizer que consegue distinguir milhares de aromas em um vinho.

RobertParker

O crítico americano de vinho Robert Parker. Fonte: www.erobertparker.com

Parker foi o responsável por colocar os vinhos de Bordeux nas alturas no mercado internacional, sendo que hoje os vinhos dessa região cujas safras são bem avaliadas por ele atingem preços exorbitantes.

Os críticos de Parker afirmam que ele tem contribuído para a uniformização mundial dos vinhos, impondo seu gosto pessoal por vinhos potentes e de alto teor alcoólico ao mercado, fazendo que os vinhos regionais percam importância. Isto seria ruim, no sentido que assim se perderia uma das características mais importantes do vinho, que é a diversidade de sabores e aromas, a expressão do terroir de cada região.

Com a uniformização, os produtores de vinhos regionais tenderiam a tornar o seus vinhos mais parecidos com os apreciados pelos críticos, pois isto resultaria em vinhos com maior potencial de valorização no mercado, gerando mais ganhos para esses produtores. Por outro lado, produtores que insistissem em manter seus vinhos fora desses padrões, sofreriam com a desvalorização de seus produtos.

Os Sistemas de Pontuação

Os sistemas de pontuação mais importantes atualmente são os seguintes.

Wine Advocate, de Robert Parker

Usa uma escala de 50 a 100 pontos, assim distribuídos:

    • 95 a 100 – Vinhos considerados extraordinários
    • 90 a 95 – Vinhos considerados excelentes
    • 80 a 90 – Vinhos considerados de acima da média a muito bons
    • 70 a 80 – Vinhos abaixo da média
    • 50 a 60 – Vinhos considerados inaceitáveis

Wine Spectator

Esta importante revista americana utiliza uma classificação parecida com a de Robert Parker

    • 95 a 100 – Vinhos considerados perfeitos, clássicos.
    • 90 a 94 – Vinhos excelentes
    • 85 a 89 – Vinhos considerados muito bons
    • 80 a 84 – Vinhos bons
    • 70 a 79 – Vinhos considerados médios
    • 60 a 69 – Vinhos considerados abaixo da média
    • 50 a 59 – Vinhos considerados de má qualidade

Jancis Robinson

Esta famosa crítica inglesa adota uma escala de 20 pontos, conforme a seguir:

    • 20 – Vinho considerado verdadeiramente excepcional
    • 19 – Vinho considerado excelente
    • 18 – Vinho considerado um pouco acima de superior
    • 17 – Vinho superior
    • 16 – Vinho distinguível
    • 15 – Vinho considerado médio
    • 14 – Vinho considerado apagado

 Outras Classificações

Existem diversas outras classificações utilizadas por outras publicações no mundo todo. No Brasil, uma das mais importantes é a da revista Adega. Na América Latina, temos a da  Descorchados. Cada uma utiliza uma escala própria de valores.

Considero que estas classificações são um bom indicador para o consumidor escolher bons vinhos a preços razoáveis, mas que não podemos tomá-las como sendo verdades absolutas, mesmo que as notas sejam concedidas por críticos renomados, como Parker.

Além disso, há muito caso de discrepâncias entre as notas obtidas pelos vinhos. É muito comum um vinho ser bem avaliado por Parker e não tão bem por Jancis Robinson, por exemplo. Aliás, esses dois críticos parecem ter gostos muito diferentes.

Já vi caso de um vinho ser avalado com nota 100 por Parker e 16 por Robinson. Ou seja, trata-se de um vinho extraordinário para o crítico americano, enquanto que para a crítica inglesa não passa de um vinho apenas distinguível. Convenhamos, não se trata de apenas uma pequena diferença de avaliação!

Por que Alguns Vinhos Chegam a Custar Uma Verdadeira Fortuna?

Uma das coisas que mais chamam atenção e fascinam às pessoas que começam a se interessar por vinhos são os preços de alguns deles. Garrafas de ícones como Château Petrus e Romanée-Conti passam facilmente de R$ 15 mil reais aqui no Brasil. E não pense que lá fora é muito diferente. Se você tiver oportunidade de visitar, por exemplo, a Bordeuxtheque, nas Galeries Lafayette, em Paris, você certamente ficará impressionado com os preços, alguns chegando a custar mais de 30 mil euros.

Preços em ascensão

Screaming Eagle

Rótulo do vinho californiano Screaming Eagle

Na verdade, nas últimas décadas houve uma verdadeira inflação no preço dos vinhos no mercado mundial. Vinho californianos, como os Screaming Eagle, atingiram altíssimos preços e mesmos os vinhos do Novo Mundo tiveram elevação significativa de preços. Até alguns anos atrás, vinhos como o argentino Nicolás Catena e o chileno Don Melchor era considerados caros e custavam em torno de R$ 300 reais. Hoje é muito comum rótulos desses países ultrapassarem facilmente R$ 600 reais.

Até mesmo no Brasil está se tornando comum encontrar vinhos que ultrapassam mais de 200 reais, principalmente nos chamados vinhos de boutique, ou seja, vinhos de pequenas vinícolas de cultivo manual e pequena produção.

Fatores de Mercado que Influenciam nos Preços

A pergunta que se faz então é por que este vinhos custam tanto e se eles valem tudo isso. Se vale ou não é uma outra questão, mas a elevação dos preços pode ser explicada por condições de mercado. Há muitos fatores que influem no preço do vinho e aqui listamos algumas que julgamos mais importantes.

Cuidados na produção - produzir vinhos de qualidade custa caro. Muito das vinícolas  utilizam técnicas especiais de cultivo e de vinificação, como limite de parreira plantada por hectare, poda manual das parreiras, corte de cachos manuais, limite de do quantidade de cachos por parreira, etc. Estes procedimentos tendem a aumentar a qualidade do vinho, mas encarecem a produção.

Safras historicamente boas – algumas safras resultam em vinhos melhores do que as outras e os vinhos resultantes destas safras tem seus preços aumentados como conseqüência. Isto é particularmente verdadeiro para os vinhos produzidos no Velho Mundo. As safras de Bordeaux de 2008 e 2009, por exemplo, foram consideradas excepcionais e a procura por seus vinhos disparou. É difícil achar vinhos top dessas safras até mesmo em lojas na França e quando se encontra, são caríssimos.

Crítica – atualmente críticos famosos como Robert Parker, Jancis Robinson e os críticos de revistas como Wine Spectator exercem muito influência no comércio de vinhos. Aqueles que recebem altísimas notas de Parker ou da Wine Spectator são muito valorizados no mercado.

Exclusividade – Alguns dos grandes vinhos californianos são produzidos para clubes fechados e conseguir uma garrafa é quase uma tarefa impossível, quando não se é membro de um desses clubes. Quando estes vinhos chegam nas mãos dos críticos e alcançam pontuação elevada, eles passam a ser objeto de desejo dos colecionadores do mundo todo.

Romannee_Conti

Uma garrafa de Romannée-Conti, o mítico vinho da Borgonha

Produção limitada - alguns vinhos tem produção limitada, o que torna a sua aquisição muito disputada pelos colecionadores, como é o caso dos grandes vinhos da Borgonha, famosos e de pequenas propriedades. É bastante comum também as grandes vinícolas produzirem vinhos com produção limitada, com seleção rigorosa de uvas de determinadas safras. O português Barca Velha, da Casa Ferreirinha, só é produzidos em anos de safra excepcional.

Prestígio do produtor – alguns vinhos com o tempo viraram ícones, como é o caso do Romannée-Conti, Château Lafite-Rothschild e o doce Château d’Yquem e, portanto, seus preços tendem a refletir o prestígio que estes vinhos alcançaram ao longo do tempo.

Modelo de comercialização – Os grandes vinhos de Bordeux são vendidos no mercado futuro, prática conhecida setor como en primeur, geralmente venda com dois anos de antecedência e com o vinho ainda nos barris das vinícolas. Ou seja, quando eles vão para o mercado, já estão com a produção completamente vendida. Se houver aumento da demanda, isto se refletirá diretamente no preço, pois não tem como aumentar a produção.

Demanda de mercados emergentes – a ascensão dos mercados emergentes aumentou a demanda por vinhos de qualidade, principalmente dos franceses de Bordeaux e Borgonha, e a conseqüência disso foi a elevação geral nos preços. A demanda vinda da China por vinhos de qualidade tem sido um dos fatores mais importantes na elevação nos preços dos vinhos nos últimos anos.