É a Cerveja uma Bebida Mais Nobre do que o Vinho?

Capa do livro Vinhos versus Cervejas

Capa do livro Vinhos versus Cervejas

Bem, pelo menos é o que quer provar este livro: Vinhos versus Cervejas, de Charles Bamforth, editora SENAC, 2011 R$ 54,90. O autor é responsável pelo Departamento de Ciências da Alimentação e Tecnologia, professor na Universidade da Califórnia e possui diversos livros publicados sobre cerveja.

No livro, ele lamenta que a cerveja não tenha o mesmo prestígio social do vinho, que é constantemente associado à pessoas com gostos refinados, enquanto que a cerveja é geralmente associada à hordas de jovens desordeiros e as classes menos favorecidas. Ele reconhece que isto acontece frequentemente, mas que não existiria razões para isso, pois a cerveja é tecnicamente mais difícil de fazer do que o vinho e como este, tem uma tradição de mais de 2000 anos.

Um dos culpados seria os próprios produtores de cerveja, que usam um marketing focado em futilidades e que não promovem seus produtos como deveriam. Além disso, ele critica o mercado de vinho que utiliza um vocabulário mistificador, que envolve o produto em um amaranhado de termos rebuscados e que não têm correspondência com a realidade.

O autor afirma que o conceito de terroir é usado frequentemente para desculpar vinhos ruins com preços super elevados, ou seja, o fato de não existir uma uniformidade na produção do vinho é usado como algo louvável, enquanto para ele seria nada mais do que a incapacidade dos produtores de fazerem um produto consistente e menos dependente de safras.

Ele alega que a cerveja, tanto quanto o vinho é um alimento saudável e que traz também benefícios para a saúde, o que é comprovado por pesquisas recentes. Da mesma forma, a diversidade da cerveja faz com que essa também seja uma bebida adequada para ser consumida junto com a alimentação, sendo possível harmonizar com qualquer tipo de comida, desde que se encolha o tipo de cerveja adequada.

No entanto, ninguém espere aqui elogios às cervejas artesanais, tão em moda nos últimos anos no Brasil. O que o autor celebra na cerveja são os grandes parques industriais, com tecnologia sofisticada, que fazem um produto consistente e de impecável qualidade técnica, ao contrário do vinho, que ainda é dominado por produtores artesanais que usam técnicas pouco sofisticadas.

Não há dúvida que o autor é um profundo conhecedor de cervejas, mas pelo que demonstra no livro, tem um conhecimento apenas moderado do vinho. A parte do livro que é dedicada à história do vinho, por exemplo, é muito confusa e mal organizada.

Além disso, ele desconsidera que mesmo em um sistema tradicional de fabricação do vinho, as técnicas que os vinicultores utilizam de manejamento da uva e de vinificação são muito sofisticadas e nada triviais.

A autor faz ao longo do livro muitos comentários que querem ser sarcásticos ao mundo do vinho, muito deles demostrando apenas preconceito e reducionismo, o que ele mesmo chega a reconhecer em alguns momentos de sinceridade.

As críticas aos exageros no mundo do vinho, com seu comportamento um tanto exibicionista, é acertada e compartilhadas por muitas pessoas, inclusive na própria industria do vinho.

No entanto, a crítica da falta de consistência na produção do vinho é, meu ver, equivocada, pois é exatamente a diversidade do vinho que faz dele uma bebida tão fascinante.

Quanto ao preço exorbitante dos vinhos famosos, nem todos  valem o que custam, mas isto é uma questão de oferta e demanda.  A realidade é que, de forma geral, a qualidade dos vinhos tem se elevado muito ultimamente e cada vez mais encontramos bons rótulos a preços razoáveis.

Além disso, a indústria do vinho tem evoluído muito nos últimos anos, com vinícolas empregando tecnologia cada vez mais sofisticada, principalmente no Novo Mundo, que depende menos da tradição. Mesmo no Velho Mundo, principalmente em países como Itália e Espanha, vemos grandes vinícolas com enormes parques industriais cada vez mais sofisticados.

A cerveja é sem dúvida alguma uma grande bebida e no Brasil é praticamente a bebida nacional por excelência, mas a meu ver o autor não convence em demonstrar que esta é  mais sofisticada do que o vinho, embora seja bem sucedido em demonstrar que a cerveja é uma também, como o vinho, uma bebida nobre  e milenar e que merece todo o nosso respeito.

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