Os Segundos Vinhos dos Grandes Chateaux de Bordeaux

Grandes vinhos são normalmente caros

Vinhos franceses são geralmente caros e os grandes vinhos podem ser realmente muito caros, o que torna os bons vinhos franceses praticamente proibitivos para o consumidor comum.

Isto é particularmente verdadeiros com os grandes vinhos de Bordeaux, abrangidos pela famosa classificação histórica de 1852.

A classificação do vinhos de Medoc de 1852

Le Petit Mouton

Le Petit Mouton, segundo vinho do Château Mouton de Rotchschild

Nesse ano foi feita uma classificação dos vinhedos da região de Medoc, da margem esquerda de Bordeaux, por ocasião da Exposição de Paris, tomando como medida para a classificação os preços praticados, em média, durante um longo período de tempo.

Foram classificados 61 vinhedos, sendo 4 classificados como Premiers crus (Château Lafite-Rothschild, Château Latour, Château Margaux e Château Haut-Brion), 15 classificados como Deuxièmes crus, 14 como Troisièmes crus, 10 como Quatrièmes crus e 18 como Cinquièmes crus.

Desde então, passados mais de 150 anos, só houve uma mudança nessa classificação: a promoção do Château Mouton-Rothschild para Premier cru em 1973.

Vale lembrar que essa classificação não vale para toda a região de Bordeaux, mas somente para a sub-região de Medoc, sendo que sub-região de Saint-Emillion possui outra classificação, mais recente e que se atualiza periodicamente.

O prestígios crescente dos vinhos de Bordeaux

Quase todos esses vinhos se tornaram verdadeiros ícone e com preços cada vez mais proibitivos, principalmente a partir da década de 70, quando eles passaram a ser os preferidos dos grandes críticos de vinhos, sendo Robert Parker o nome mais conhecido.

A ascensão da demanda nos países emergentes também contribuiu para o aumento de preços, tendo em vista que a classificação de Bordeaux se mostrou mais fácil de entender para esses mercados do que a de Borgonha, cuja classificação é por vinhedo, que por sua vez podem possuir vários proprietários e nem todos mantêm o mesmo padrão de qualidade.

Muitos críticos, com Hugh Johnson, por exemplo, argumentam que a superioridade dos bancos de cascalhos onde estão localizados esses châteaux são mais importantes para a qualidade deles do que a forma com que cada um deles produzem os seus vinhos.

Ou seja, em Bordeaux, o mais importante é a qualidade do terroir.

Os segundo vinhos dos grandes châteaux

Assim, uma forma de se poder usufruir o gosto desse terroir sem precisar vender a casa para isso seria comprar os segundos vinhos de cada château, ou Les Deuxième Vin, que embora não tenham o mesmo prestígio do vinho principal da casa, podem nos proporcionar um gosto muito próximo dos deles, dando-nos a oportunidade de experimentar o que o terroir dessa maravilhosa região pode oferecer.

Hoje, quase todo château produz um segundo vinho e alguns deles chegam mesmo a produzir um terceiro vinho da casa.

Normalmente, um segundo vinho fica em torno de 30% do valor do vinho principal, o que se não chega a ser uma pechincha, é bem mais em conta do que o vinho principal, sendo que no Brasil pode se achar alguns bons segundos vinhos já a partir de algo em torno de R$ 200,00.

Alguns desses vinhos já adquiriram prestígio próprio, com é o caso do Les Pagodes de Cos, do Chêteau de C’os d’Estornel e do Petit Mouton, do Château Moutoun de Rothschild.

Esses últimos, no entanto, nas melhores safras já custam no Brasil mais de R$ 2.000 a garrafa, seguindo assim os passos de seus irmão mais famosos em termos de preços elevadíssimos.

Um bom guia para alguns desses vinhos foi resenhado aqui.

A Crítica de Vinhos e o Sistema de Pontuações

A Ascensão da Crítica Especializada

Nunca na história do vinho o papel dos críticos se tornou tão importante como na atualidade. Críticos de vinhos famosos como Robert Parker, Jancis Robinson ou Hugh Johnson exercem tão profunda influencia sobre o mercado que uma opinião deles favorável ou não sobre um determinado vinho tem o poder de afetar o preço que será cobrado por ele.

O mais famoso crítico, sem dúvida alguma é Robert Parker, advogado americano que fundou a revista Wine Advocate e de quem se costuma dizer que consegue distinguir milhares de aromas em um vinho.

RobertParker

O crítico americano de vinho Robert Parker. Fonte: www.erobertparker.com

Parker foi o responsável por colocar os vinhos de Bordeux nas alturas no mercado internacional, sendo que hoje os vinhos dessa região cujas safras são bem avaliadas por ele atingem preços exorbitantes.

Os críticos de Parker afirmam que ele tem contribuído para a uniformização mundial dos vinhos, impondo seu gosto pessoal por vinhos potentes e de alto teor alcoólico ao mercado, fazendo que os vinhos regionais percam importância. Isto seria ruim, no sentido que assim se perderia uma das características mais importantes do vinho, que é a diversidade de sabores e aromas, a expressão do terroir de cada região.

Com a uniformização, os produtores de vinhos regionais tenderiam a tornar o seus vinhos mais parecidos com os apreciados pelos críticos, pois isto resultaria em vinhos com maior potencial de valorização no mercado, gerando mais ganhos para esses produtores. Por outro lado, produtores que insistissem em manter seus vinhos fora desses padrões, sofreriam com a desvalorização de seus produtos.

Os Sistemas de Pontuação

Os sistemas de pontuação mais importantes atualmente são os seguintes.

Wine Advocate, de Robert Parker

Usa uma escala de 50 a 100 pontos, assim distribuídos:

    • 95 a 100 – Vinhos considerados extraordinários
    • 90 a 95 – Vinhos considerados excelentes
    • 80 a 90 – Vinhos considerados de acima da média a muito bons
    • 70 a 80 – Vinhos abaixo da média
    • 50 a 60 – Vinhos considerados inaceitáveis

Wine Spectator

Esta importante revista americana utiliza uma classificação parecida com a de Robert Parker

    • 95 a 100 – Vinhos considerados perfeitos, clássicos.
    • 90 a 94 – Vinhos excelentes
    • 85 a 89 – Vinhos considerados muito bons
    • 80 a 84 – Vinhos bons
    • 70 a 79 – Vinhos considerados médios
    • 60 a 69 – Vinhos considerados abaixo da média
    • 50 a 59 – Vinhos considerados de má qualidade

Jancis Robinson

Esta famosa crítica inglesa adota uma escala de 20 pontos, conforme a seguir:

    • 20 – Vinho considerado verdadeiramente excepcional
    • 19 – Vinho considerado excelente
    • 18 – Vinho considerado um pouco acima de superior
    • 17 – Vinho superior
    • 16 – Vinho distinguível
    • 15 – Vinho considerado médio
    • 14 – Vinho considerado apagado

 Outras Classificações

Existem diversas outras classificações utilizadas por outras publicações no mundo todo. No Brasil, uma das mais importantes é a da revista Adega. Na América Latina, temos a da  Descorchados. Cada uma utiliza uma escala própria de valores.

Considero que estas classificações são um bom indicador para o consumidor escolher bons vinhos a preços razoáveis, mas que não podemos tomá-las como sendo verdades absolutas, mesmo que as notas sejam concedidas por críticos renomados, como Parker.

Além disso, há muito caso de discrepâncias entre as notas obtidas pelos vinhos. É muito comum um vinho ser bem avaliado por Parker e não tão bem por Jancis Robinson, por exemplo. Aliás, esses dois críticos parecem ter gostos muito diferentes.

Já vi caso de um vinho ser avalado com nota 100 por Parker e 16 por Robinson. Ou seja, trata-se de um vinho extraordinário para o crítico americano, enquanto que para a crítica inglesa não passa de um vinho apenas distinguível. Convenhamos, não se trata de apenas uma pequena diferença de avaliação!